quinta-feira, 28 de maio de 2009
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Como falamos a democracia?
por Mia Couto
Na bela cidade de Durban, falávamos eu e outros escritores africanos da surpresa do modo como, no Zimbabwe, tantos ainda apoiam Robert Mugabe.
Havia, no grupo, escritores de vários países de África. Aproveitámos o que melhor há nas conferências literárias: os intervalos. A nossa perplexidade não se limitava ao caso zimbabweano. Como é que povos inteiros, em outras nações, se acomodaram perante dirigentes corruptos e venais. De onde nasce tanta resignação?
Uma das razões dessa aceitação reside na forma como as línguas se relacionam com conceitos políticos da modernidade. Por exemplo, um zimbabweano rural designa os seus líderes nacionais como entidades divinizadas, fora das contingências da História e longe da vontade dos súbditos. O mesmo se passa em quase todas as línguas bantus.
A questão pode ser assim formulada: como pensar a democracia numa língua em que não existe a palavra «democracia»? Num idioma em que «Presidente» se diz «Deus»? Nas línguas do Sul de Moçambique, o termo para designar o chefe de Estado é «hossi». Essa mesma palavra designa também as entidades divinas na forma dos espíritos dos antepassados, traduzindo uma sociedade em que não há separação da esfera religiosa. Parece uma questão de ordem linguística. Não é.
Trata-se do modo como se organizam as percepções e as representações que uma sociedade constrói sobre si mesma. A sacralização do poder não pode casar com regimes em que se supõe que os líderes são escolhidos por livre votação. Numa sociedade em que os súbditos se convertem em cidadãos. Esse assunto escapa muitas vezes a quem se especializou em organizar seminários sobre cidadania e modernidade em África.
A problemática política é vista, quase sempre, na sua dimensão institucional, exterior à intimidade dos cidadãos. Quando o participante do seminário explicar à sua comunidade o conteúdo dos debates usará a sua língua materna. E sempre que se referir ao Presidente ele fará uso do termo «deus». Como pedir uma atitude de mudança nestas circunstâncias? O que se pode fazer? Será que os falantes destas línguas estão condenados à imobilidade por causa desta inércia linguística?
Na realidade, existem tensões entre a lógica interna de algumas destas línguas e a dinâmica social. Estas tensões não são novas e sempre foram resolvidas a favor da adaptação criativa e da criação de futuro. Já no passado, as culturas africanas (e todas as outras em todos os continentes) tiveram que se moldar e se reajustar perante aquilo que surgia como novidade. Eu mesmo testemunhei o modo veloz como as línguas moçambicanas se municiaram de instrumentos novos, roubando e apropriando- se de termos não próprios. Com o uso generalizado esses termos acabaram indigenizando-se. Sem drama linguístico, sem apoio de academias nem de acordos ortográficos os falantes dessas línguas «pediram» de empréstimo palavras de outros idiomas. Moçambique é, nesse domínio, um caldeirão dessas mestiçagens.
Os nacionalistas africanos não ficaram à espera que um vocabulário apropriado nascesse nas línguas maternas dos seus países. Eles começaram a luta e essa mesma dinâmica contaminou (mesmo com uso de termos e discursos inteiros em português) as restantes línguas locais. Tudo isto nos traz a convicção do seguinte: a capacidade de questionar o presente necessita de língua portadora de futuro. A necessidade de sermos do nosso tempo e do nosso mundo exige línguas abertas ao cosmopolitismo.
África – tantas vezes pensada como morando no passado – já está vivendo no futuro no que respeita à condição linguística: quase todos africanos são multilingues. Essa disponibilidade é uma marca de modernidade vital. O destino da nossa espécie é que cada pessoa seja a humanidade toda inteira.
"O destino da nossa espécie é que cada pessoa seja a humanidade toda inteira."
Na bela cidade de Durban, falávamos eu e outros escritores africanos da surpresa do modo como, no Zimbabwe, tantos ainda apoiam Robert Mugabe.
Havia, no grupo, escritores de vários países de África. Aproveitámos o que melhor há nas conferências literárias: os intervalos. A nossa perplexidade não se limitava ao caso zimbabweano. Como é que povos inteiros, em outras nações, se acomodaram perante dirigentes corruptos e venais. De onde nasce tanta resignação?
Uma das razões dessa aceitação reside na forma como as línguas se relacionam com conceitos políticos da modernidade. Por exemplo, um zimbabweano rural designa os seus líderes nacionais como entidades divinizadas, fora das contingências da História e longe da vontade dos súbditos. O mesmo se passa em quase todas as línguas bantus.
A questão pode ser assim formulada: como pensar a democracia numa língua em que não existe a palavra «democracia»? Num idioma em que «Presidente» se diz «Deus»? Nas línguas do Sul de Moçambique, o termo para designar o chefe de Estado é «hossi». Essa mesma palavra designa também as entidades divinas na forma dos espíritos dos antepassados, traduzindo uma sociedade em que não há separação da esfera religiosa. Parece uma questão de ordem linguística. Não é.
Trata-se do modo como se organizam as percepções e as representações que uma sociedade constrói sobre si mesma. A sacralização do poder não pode casar com regimes em que se supõe que os líderes são escolhidos por livre votação. Numa sociedade em que os súbditos se convertem em cidadãos. Esse assunto escapa muitas vezes a quem se especializou em organizar seminários sobre cidadania e modernidade em África.
A problemática política é vista, quase sempre, na sua dimensão institucional, exterior à intimidade dos cidadãos. Quando o participante do seminário explicar à sua comunidade o conteúdo dos debates usará a sua língua materna. E sempre que se referir ao Presidente ele fará uso do termo «deus». Como pedir uma atitude de mudança nestas circunstâncias? O que se pode fazer? Será que os falantes destas línguas estão condenados à imobilidade por causa desta inércia linguística?
Na realidade, existem tensões entre a lógica interna de algumas destas línguas e a dinâmica social. Estas tensões não são novas e sempre foram resolvidas a favor da adaptação criativa e da criação de futuro. Já no passado, as culturas africanas (e todas as outras em todos os continentes) tiveram que se moldar e se reajustar perante aquilo que surgia como novidade. Eu mesmo testemunhei o modo veloz como as línguas moçambicanas se municiaram de instrumentos novos, roubando e apropriando- se de termos não próprios. Com o uso generalizado esses termos acabaram indigenizando-se. Sem drama linguístico, sem apoio de academias nem de acordos ortográficos os falantes dessas línguas «pediram» de empréstimo palavras de outros idiomas. Moçambique é, nesse domínio, um caldeirão dessas mestiçagens.
Os nacionalistas africanos não ficaram à espera que um vocabulário apropriado nascesse nas línguas maternas dos seus países. Eles começaram a luta e essa mesma dinâmica contaminou (mesmo com uso de termos e discursos inteiros em português) as restantes línguas locais. Tudo isto nos traz a convicção do seguinte: a capacidade de questionar o presente necessita de língua portadora de futuro. A necessidade de sermos do nosso tempo e do nosso mundo exige línguas abertas ao cosmopolitismo.
África – tantas vezes pensada como morando no passado – já está vivendo no futuro no que respeita à condição linguística: quase todos africanos são multilingues. Essa disponibilidade é uma marca de modernidade vital. O destino da nossa espécie é que cada pessoa seja a humanidade toda inteira.
"O destino da nossa espécie é que cada pessoa seja a humanidade toda inteira."
(Crónica de Mia Couto, escritor moçambicano, publicada na edição de Abril da revista África 21)
sábado, 25 de abril de 2009
Sereia ou Baleia?
Uma amiga mandou-me este e-mail:
"Há uns dias, numa cidade de França, um cartaz, com uma jovem espectacular, na montra de um ginásio, dizia:"ESTE VERÃO, QUERES SER SEREIA OU BALEIA?"
Dizem que uma mulher jovem-madura, cujas características físicas não interessam, respondeu à pergunta publicitária nestes termos:
"Estimados Senhores: As baleias estão sempre rodeadas de amigos (golfinhos, leões-marinhos, humanos curiosos). Têm uma vida sexual muito activa, engravidam e têm baleiazinhas ternurentas, às quais amamentam. Divertem-se à brava com os golfinhos, enchendo a barriga de camarões. Brincam e nadam, sulcando os mares, conhecendo lugares tão maravilhosos como a Patagónia, o mar de Barens ou os recifes de coral da Polinésia.
As baleias cantam muito bem e até gravam CD's. São impressionantes e praticamente não têm outros predadores além dos humanos. São queridas, defendidas e admiradas por quase toda a gente.
As sereias não existem. E, se existissem, fariam fila nas consultasdos psicanalistas, porque teríam um grave problema de personalidade,"mulher ou peixe?".
Não têm vida sexual, porque matam os homens que delas se aproximam, além disso, por onde? Por isso, também não têm filhos. São bonitas, é verdade, mas solitárias e tristes. Além disso, quem quereria aproximar-se de uma rapariga que cheira a peixaria? Para mim está claro, quero ser baleia.
P.S.: Nesta época em que os meios de comunicação nos metem na cabeça a ideia de que apenas as magras são bonitas, prefiro disfrutar de um gelado com os meus filhos, de um bom jantar com um homem que me faça vibrar, de um café e bolos com os meus amigos.
Com o tempo ganhamos peso, porque ao acumular tanta informação na cabeça, quando já não cabe, espalha-se pelo resto do corpo, por isso não estamos gordas, somos tremendamente cultas. A partir de hoje, quando vir o meu rabo no espelho, pensarei, Meu Deus, que inteligente que sou..."
Eis a minha resposta:
Gostei muito da história da baleia. É uma história de harmonia, de paz, de amor e de luz!!!
Porém, a parte sobre a Sereia entristeceu-me. Isto por causa da quantidade de preconceitos que fui encontrando enquanto lia! Vou-me referir a apenas alguns...
Exemplo um: mulher-peixe - quem disse que não é bom ser mulher, linda e com seios belos, fartos, disponíveis para dar de beber - ainda que seja o leite de despedida, ao seu amor, seu homem, que numa sincronia terna, parte para a eternidade...? Quem disse que não pode haver um prazer imensurável nesse gesto que eu explico com mais precisão através da palavra em Inglês "nurture". To nurture love!!!
Mas, falando agora de peixe, a segunda parte do preconceito mulher-peixe: quem disse que não há razões simples que explicam porque essa bela mulher tenha uma cauda? Por exemplo, a cauda permite-lhe deslocar-se e viver no seu habitat, nadando em águas de diferentes temperaturas sem que o seu corpo fique enrugado pelo contacto permanente com a água, visto que as escamas o protegem e mantêm a linda sereia sempre protegida e confortável.
Outro preconceito: ser bonita é ser estúpida!: Porquê??? Para mim, ser bonita, é amar-se a si própria - love self. Este amor próprio começa com a jornada inicial de encontro aos nossos respectivos centro, aquilo a que alguns chamam de busca interior, outros de procura de equilíbrio. No fundo, é o passo necessário para nos aceitarmos, para gostarmos de nós e termos a liberdade de querer ser e sentir linda, de nos tratarmos bem... de sermos felizes. Todos nós somos bonitas desde que queiramos ser!!!!
Ah! Não me apetece escrever sobre o segundo preconceito preconceito da frase em análise: estúpida?
Assinei: Mulher madura jovem.
Segue a resposta de uma amiga:
Gostei da tua resposta,querida amiga. Estou de acordo contigo. Completamente. Acho que a pessoa que escreveu sobre o valorizar das "baleias" estava a "ferver " com os esterotipos das mulheres fortes/gordas que não são felizes, e ela tem razão.
Mas acabou caindo numa outra " descriminação".... ao defender um grupo, acabou atacando o outro...
Acontece tantas vezes... é dificil sair deste circuito dos binómios que nos encerraram: "se sou por alguma coisa, é que devo ser contra a outra". Os matizes são difíceis de ver, de aceitar... e , no entanto, é nos matizes todos que está a força, a beleza, a sageza, a alegria e a força da vida!!
Obrigada por partilhares comigo.
Beijão.
"Há uns dias, numa cidade de França, um cartaz, com uma jovem espectacular, na montra de um ginásio, dizia:"ESTE VERÃO, QUERES SER SEREIA OU BALEIA?"
Dizem que uma mulher jovem-madura, cujas características físicas não interessam, respondeu à pergunta publicitária nestes termos:
"Estimados Senhores: As baleias estão sempre rodeadas de amigos (golfinhos, leões-marinhos, humanos curiosos). Têm uma vida sexual muito activa, engravidam e têm baleiazinhas ternurentas, às quais amamentam. Divertem-se à brava com os golfinhos, enchendo a barriga de camarões. Brincam e nadam, sulcando os mares, conhecendo lugares tão maravilhosos como a Patagónia, o mar de Barens ou os recifes de coral da Polinésia.
As baleias cantam muito bem e até gravam CD's. São impressionantes e praticamente não têm outros predadores além dos humanos. São queridas, defendidas e admiradas por quase toda a gente.
As sereias não existem. E, se existissem, fariam fila nas consultasdos psicanalistas, porque teríam um grave problema de personalidade,"mulher ou peixe?".
Não têm vida sexual, porque matam os homens que delas se aproximam, além disso, por onde? Por isso, também não têm filhos. São bonitas, é verdade, mas solitárias e tristes. Além disso, quem quereria aproximar-se de uma rapariga que cheira a peixaria? Para mim está claro, quero ser baleia.
P.S.: Nesta época em que os meios de comunicação nos metem na cabeça a ideia de que apenas as magras são bonitas, prefiro disfrutar de um gelado com os meus filhos, de um bom jantar com um homem que me faça vibrar, de um café e bolos com os meus amigos.
Com o tempo ganhamos peso, porque ao acumular tanta informação na cabeça, quando já não cabe, espalha-se pelo resto do corpo, por isso não estamos gordas, somos tremendamente cultas. A partir de hoje, quando vir o meu rabo no espelho, pensarei, Meu Deus, que inteligente que sou..."
Eis a minha resposta:
Gostei muito da história da baleia. É uma história de harmonia, de paz, de amor e de luz!!!
Porém, a parte sobre a Sereia entristeceu-me. Isto por causa da quantidade de preconceitos que fui encontrando enquanto lia! Vou-me referir a apenas alguns...
Exemplo um: mulher-peixe - quem disse que não é bom ser mulher, linda e com seios belos, fartos, disponíveis para dar de beber - ainda que seja o leite de despedida, ao seu amor, seu homem, que numa sincronia terna, parte para a eternidade...? Quem disse que não pode haver um prazer imensurável nesse gesto que eu explico com mais precisão através da palavra em Inglês "nurture". To nurture love!!!
Mas, falando agora de peixe, a segunda parte do preconceito mulher-peixe: quem disse que não há razões simples que explicam porque essa bela mulher tenha uma cauda? Por exemplo, a cauda permite-lhe deslocar-se e viver no seu habitat, nadando em águas de diferentes temperaturas sem que o seu corpo fique enrugado pelo contacto permanente com a água, visto que as escamas o protegem e mantêm a linda sereia sempre protegida e confortável.
Outro preconceito: ser bonita é ser estúpida!: Porquê??? Para mim, ser bonita, é amar-se a si própria - love self. Este amor próprio começa com a jornada inicial de encontro aos nossos respectivos centro, aquilo a que alguns chamam de busca interior, outros de procura de equilíbrio. No fundo, é o passo necessário para nos aceitarmos, para gostarmos de nós e termos a liberdade de querer ser e sentir linda, de nos tratarmos bem... de sermos felizes. Todos nós somos bonitas desde que queiramos ser!!!!
Ah! Não me apetece escrever sobre o segundo preconceito preconceito da frase em análise: estúpida?
Assinei: Mulher madura jovem.
Segue a resposta de uma amiga:
Gostei da tua resposta,querida amiga. Estou de acordo contigo. Completamente. Acho que a pessoa que escreveu sobre o valorizar das "baleias" estava a "ferver " com os esterotipos das mulheres fortes/gordas que não são felizes, e ela tem razão.
Mas acabou caindo numa outra " descriminação".... ao defender um grupo, acabou atacando o outro...
Acontece tantas vezes... é dificil sair deste circuito dos binómios que nos encerraram: "se sou por alguma coisa, é que devo ser contra a outra". Os matizes são difíceis de ver, de aceitar... e , no entanto, é nos matizes todos que está a força, a beleza, a sageza, a alegria e a força da vida!!
Obrigada por partilhares comigo.
Beijão.
domingo, 5 de abril de 2009
Adeus, alma querida
Adeus, alma querida "Se você ama alguma coisa, deixe-a livre. Se voltar, é sua. Se não voltar, nunca lhe pertençeu." Se, no caminho do teu Saara, encontrares uma alma que te queira bem, aceita em silêncio o suave ardor da sua benquerença - mas não lhe peças coisa alguma, não exijas, não reclames nada do ente querido.
Recebe com amor o que com amor te é dado - e continua a servir com perfeita humildade e despretensão. Quanto mais querida te for uma alma, tanto menos a explores, tanto mais lhe serve, sem nada esperar em troca. No dia e na hora em que uma alma impuser a outra alma um dever, uma obrigação, começa a agonia do amor, da amizade.
Só num clima de absoluta espontaneidade pode viver esta plantinha delicada. E quando então essa alma que te foi querida se afastar de ti - não a retenhas. Deixa que se vá em plena liberdade. Faze acompanhá-la dos anjos tutelares das tuas preces e saudades, para que em níveas asas a envolvam e de todo mal a defendam - mas não lhe peças que fique contigo.
Mais amiga te será ela, em espontânea liberdade, longe de ti - do que em forçada escravidão, perto de ti. Deixa que ela siga os seus caminhos - ainda que esses caminhos a conduzam aos confins do Universo, à mais extrema distância do teu habitáculo corpóreo.
Se entre essa alma e a tua existir afinidade espiritual, não há distância, não há em todo Universo espaço bastante grande que de ti possa alhear essa alma. Ainda que ela erguesse vôo e fixasse o seu tabernáculo para além das últimas praias do Sírio, para além das derradeiras fosforescências da Via Láctea, para além das mais longínquas nebulosas de mundos em formação - contigo estaria essa alma querida... Mas, se não vigorar afinidade espiritual entre ti e ela, poderá essa alma viver contigo sob o mesmo teto e contigo sentar-se à mesma mesa - não será tua, nem haverá entre vós verdadeira união e felicidade.
Para o espírito a proximidade espiritual é tudo - a distância material não é nada!
Compreende, ó homem/mulher - e vai para onde quiseres! Ama - e estarás sempre perto do ente amado...
Em todo o Universo... Dentro de ti mesmo...
Texto extraído do livro "De Alma para Alma", de Huberto Rohden
Recebe com amor o que com amor te é dado - e continua a servir com perfeita humildade e despretensão. Quanto mais querida te for uma alma, tanto menos a explores, tanto mais lhe serve, sem nada esperar em troca. No dia e na hora em que uma alma impuser a outra alma um dever, uma obrigação, começa a agonia do amor, da amizade.
Só num clima de absoluta espontaneidade pode viver esta plantinha delicada. E quando então essa alma que te foi querida se afastar de ti - não a retenhas. Deixa que se vá em plena liberdade. Faze acompanhá-la dos anjos tutelares das tuas preces e saudades, para que em níveas asas a envolvam e de todo mal a defendam - mas não lhe peças que fique contigo.
Mais amiga te será ela, em espontânea liberdade, longe de ti - do que em forçada escravidão, perto de ti. Deixa que ela siga os seus caminhos - ainda que esses caminhos a conduzam aos confins do Universo, à mais extrema distância do teu habitáculo corpóreo.
Se entre essa alma e a tua existir afinidade espiritual, não há distância, não há em todo Universo espaço bastante grande que de ti possa alhear essa alma. Ainda que ela erguesse vôo e fixasse o seu tabernáculo para além das últimas praias do Sírio, para além das derradeiras fosforescências da Via Láctea, para além das mais longínquas nebulosas de mundos em formação - contigo estaria essa alma querida... Mas, se não vigorar afinidade espiritual entre ti e ela, poderá essa alma viver contigo sob o mesmo teto e contigo sentar-se à mesma mesa - não será tua, nem haverá entre vós verdadeira união e felicidade.
Para o espírito a proximidade espiritual é tudo - a distância material não é nada!
Compreende, ó homem/mulher - e vai para onde quiseres! Ama - e estarás sempre perto do ente amado...
Em todo o Universo... Dentro de ti mesmo...
Texto extraído do livro "De Alma para Alma", de Huberto Rohden
segunda-feira, 23 de março de 2009
O peso de algumas palavras
Por Pepetela
Permitam-me em primeiro lugar agradecer a honra conferida pela Reitoria da Universidade Agostinho Neto, ao me fazer o convite para proferir esta palestra que eu gostaria bem de merecer o nome de “Oração de Sapiência”, mas temo ser demasiado modesta e ligeira para tal epígrafe.
Aproveitarei o facto de hoje a minha profissão ser unicamente a de escritor para me escudar nessa cómoda desculpa em relação a um tratamento de texto que talvez não se coadune inteiramente com a solenidade do momento. Será porventura norma nesta nossa casa que a Oração de Sapiência exija alguma reflexão teórica e respectiva linguagem sobre assuntos relevantes para uma ciência em particular. Balançando-me entre o facto de ter estudado, praticado e ensinado Sociologia, o que indicaria uma comunicação nessa área, e a minha propensão natural de ficcionista em distorcer por vezes factos escrevendo estórias, peço pois a vossa compreensão para a ligeireza e alguma falta de rigor teórico que possivelmente encontrem no meu discurso. Difícil seria acontecer o contrário e acertar imediatamente no tom mais conveniente para uma intervenção estritamente académica.
Entrando no sujeito, decidi, depois de alguma hesitação, falar sobre palavras. As palavras são afinal o instrumento por excelência do escritor, mas acabam por ser também de profissionais de outras áreas, em particular nas ciências sociais. O tema que me propus tratar, à volta das palavras, tem e não tem relação directa com as ciências sociais, sendo proveniente de observações feitas recentemente e outras intuições bem mais antigas que tenho reiteradamente repetido em público, apenas de forma diferente. Falemos pois sobre palavras.
Se me permitem um começo muito terra-a-terra, vou salientar a forma dominadora, quase tirânica, como algumas palavras se apossam rapidamente da sociabilidade, em determinado tempo e espaço. O exemplo mais claro é o da palavra engarrafamento ou trânsito caótico em Luanda, o que vem dar ao mesmo. Actualmente, surge no relacionamento entre pessoas de largo extracto social como uma continuação lógica da habitual saudação. Se perdemos trinta segundos para cumprimentar e saber da saúde do outro, gastamos seguramente mais tempo para nos queixarmos dos engarrafamentos e do trânsito caótico. Esta situação urbana passou a ser uma introdução à conversa, uma muleta para quem tem pouco a comunicar, como já foi antes o estado do tempo, com as referências sobre a chuva ou o calor.
O engarrafamento se tornou uma palavra extremamente útil no relacionamento social corrente, cumprindo o papel de gatilho da interação verbal. Tem outras conveniências. Também serve a estratégia pessoal da desculpabilização, pois a nossa proverbial falta de pontualidade encontra agora uma justificação imbatível, com provas possíveis de encontrar mesmo na imprensa internacional. É também razão apontada para cansaço persistente provocando pouca produtividade no trabalho, e mesmo desentendimentos familiares pelo afastamento material criado entre os respectivos membros. Por outro lado, se tornou ocasião privilegiada para assaltos nas ruas à vista de toda a gente e portanto para a criação da psicose da insegurança, enfim, fonte de males e perturbações psicológicas. Não nego razão a muitas destas queixas, mas a opinião pessoal do observador está fora de causa.
A palavra engarrafamento, tornada uma das mais usadas na nossa sociedade no dia a dia, explica como uma situação urbana tem reflexos sociais incontestáveis. E, se estudos fossem feitos para traduzir em kwanzas o tremendo prejuízo à economia nacional gerado pelo tempo perdido nos meios de transporte, a palavra ganharia outra dimensão à medida das nossas desgraças.
Nos dias que correm, outra palavra hiper usada é crise. Está evidentemente relacionada com a crise global financeira, originada ou apenas agravada pela especulação e apetite desenfreado de alguns magnatas do ocidente, que acabou por transbordar fronteiras e tocar toda a gente, embora alguns economistas e acríticos pensadores angolanos tenham negado a sua existência, ou mesmo a possibilidade de ela se manifestar entre nós, quando os primeiros sintomas já pairavam no horizonte e a palavra tomava incessantemente conta dos órgãos de comunicação estrangeiros. Alguns entre nós consideraram erradamente que as notícias se referiam apenas às economias mais avançadas, com forte pendor financeiro, enquanto Angola escaparia aos seus efeitos, esquecendo ou não querendo ver que se tratava de uma crise do sistema financeiro mundial e portanto afectando forçosamente todas as economias se regendo pelos princípios do capitalismo neoliberal, como é o nosso envergonhado caso, para não caracterizar o sistema económico-social que aqui se vai fazendo com um adjectivo mais contundente, mas menos digno desta venerável cerimónia.
Crise tornou-se pois a palavra das conversas, em determinado grupo social ao qual acabamos todos por pertencer, depois dos iniciais desabafos sobre o trânsito. No entanto, é palavra que merece sem dúvida maior tratamento, deixando o problema dos engarrafamentos para os políticos e técnicos que os devem resolver. Há três meses participei no Brasil num painel cujo título, curioso, era precisamente “O escritor e a crise”.
Evidentemente nenhum autor falou da crise económica e da possível acção dos escritores sobre ela, objectivo provável dos inventores do painel. Pela minha parte, limitei-me a dizer que já o título trazia equívocos, pois, por definição, um escritor é um ser em crise, pelo menos no momento de criação. A arte está indissoluvelmente ligada à procura de rupturas, inovações, correspondendo a momentos de forte tensão de grupos sociais em mudança ou à procura dela, numa palavra, crise. E depois desenvolvi a ideia já conhecida entre nós que toda a literatura angolana, desde os remotos anos do século XIX, se tem alimentado de uma sociedade em crise permanente, seja por causa da colonização e resistência a ela, seja da guerra depois da Independência, seja da situação de reestruturação social actual. E que estávamos de tal maneira habituados a crises de toda a ordem, que esta seria mais uma, apenas diferente, e não seríamos certamente chamados a resolvê-la, apenas a sofrê-la.
Acrescento que a actual crise mundial não vai obviamente encontrar solução aqui, dependentes que estamos da ordem internacional. Somos conhecidos pelo orgulho exacerbado com que nos defrontamos com o outro e a tendência a considerarmos tudo o que nos toca como sendo fundamental, único e de importância vital. Desta vez, porém, nem os mais nacionalistas ousarão colocar Angola numa das premissas essenciais de solução do problema criado pelos outros. Infelizmente para o nosso grande ego, sempre pronto a nos ver como cavaleiros andantes em busca de aventura. Devemos por isso ser humildes e prudentes ao tratar com ela, evitando gestos demasiado audaciosos que só podem neste momento ter más consequências. De qualquer maneira, mesmo se a crise não depende de nós, falamos constantemente dela e vamos usá-la como justificação para muita coisa, como se vai já adivinhando por algumas posições e intervenções públicas. Apesar de tudo de negativo que comporta, se trata de uma bela palavra, forte, rápida de pronunciar, um tiro sonoro no deserto.
Querendo, também podemos prolongar a vogal forte, criiiiise, dando um indubitável peso à nossa preocupação com o futuro. Um único aspecto quero ressaltar neste facto, é que a crise pode ser útil para o futuro. Não serei original, mais uma vez. Outros já tocaram no assunto de a situação com a qual o mundo se defronta ser capaz de estabelecer novos parâmetros para alguns apetites e exageros, obrigando a reformular o sistema capitalista vigente, pois a vertente ultraliberal está totalmente desacreditada. Talvez estes eternos optimistas tenham razão. Embora não haja de facto nada de novo, pois há mais de um século tinha sido claramente diagnosticada pelo hoje politicamente pouco correcto pensador, Karl Marx, o qual sustentava que o capitalismo vivia das crises que periodicamente criava. Assim tem sido, com maior ou menor intensidade, desde os seus primeiros escritos. No entanto, o homem é um ser de memória curta e está sempre a desaprender os ensinamentos do passado, talvez para dar mais razão de ser aos professores, os quais têm por tarefa relembrá-los.
No que nos diz respeito, pode a situação levar a repensar muita da teoria que está por baixo de numerosos actos de governantes e governados, embora normalmente essa teoria se tenha deixado de reconhecer publicamente: refiro-me à ideia, trazida dos tempos coloniais, de que Angola é um país rico.
Mesmo se a maior parte de nós não o diz claramente, por já ter vergonha de aparentar uma presunção tão combatida pela própria realidade, pensa-o nas suas conversas secretas com o travesseiro. O convencimento voltou com a euforia dos últimos anos, ao se observar um crescimento anormal do Produto Interno Bruto, apesar de alguns gritos isolados de alerta. Porém, a ideia escondida e falsa acaba sempre por contaminar o processo de traçar planos para o país.
A nossa megalomania nacional, verdadeiro traço de carácter, ou, segundo o vetusto Kardiner, um marcador da nossa personalidade de base, provém de julgarmos o país incomensuravelmente rico. Os colonizadores, nos anos sessenta e setenta do século passado, repetiram tantas vezes esta lenda, que ela passou a fazer parte do nosso código genético, por assim dizer, e agora é difícil voltar atrás e admitir o contrário, que somos de facto e por enquanto, apesar de algumas indubitáveis vitórias, um país miserável, incapaz de alimentar suficientemente os seus filhos, incapaz até agora de matar no ovo as diferentes epidemias que nos assolam, incapaz de avançar numa clara política de desenvolvimento sustentado.
Mas a crise veio para nos mostrar quanta debilidade afinal apresentamos. E ainda bem. Talvez, se nos mentalizarmos efectiva e definitivamente que país rico é aquele que pode alimentar os seus filhos e prover às suas necessidades básicas sem precisar constantemente de recorrer ao exterior, então estaremos a dar o primeiro passo para sair da situação de subdesenvolvimento em que estamos mergulhados há séculos, situação ultimamente disfarçada, mas mal, pelos arranha-céus de vidros espelhados e planos mirabolantes de viadutos esplendorosos sobre o mar. Infelizmente, essas brilhantes obras de engenharia e arquitectura ainda não saíram das cabeças e competências dos nossos profissionais, sendo sempre de inventiva estrangeira.
Além do mais, o que é triste, as grandes obras estão baseadas sobre lixo e miséria, ou
convivem paradoxalmente com eles. Por isso insisto nesta matéria de forma cansativa, somos mesmo subdesenvolvidos e dependentes. Só sairemos dessa situação de dependência quando resolvermos os nossos problemas com as nossas cabeças e quando aprendermos a olhar apenas para o espelho em busca de reconhecimento e não a procurar nas televisões ou jornais estrangeiros um magro elogio aos nossos feitos. Ao mesmo tempo que somos orgulhosos nalgumas ocasiões, diga-se de passagem por vezes com razão, também ficamos ansiosamente complexados à espera de um qualquer veredicto exterior, numa contradição patológica.
Voltando ao malabarismo com as palavras, crise é pois a que se segue a engarrafamento na frequência de uso actual, podendo vir a liderar em breve, se de facto o mundo não encontrar rápidas soluções para reformular o capitalismo, na falta de alternativa de momento, ou se nós não tivermos a capacidade de minorar os seus nefastos efeitos com os nossos próprios meios.
Mas há, por outro lado, palavras importantes e que não são suficientemente ditas. Vou pois referir-me a elas em seguida, as que deviam aparecer mais vezes nas conversas e na comunicação social mas, talvez por vergonha (ainda a vergonha!) usamos muito pouco.
A primeira é uma das mais expressivas que conheço na língua portuguesa: ganância. Sonora, vibrante e profunda, por utilizar três vezes a mesma vogal, provavelmente a mais estática das vogais, o “a”. Tem sido ultimamente utilizada nos meios internacionais, não a palavra portuguesa mas o seu correspondente em línguas estrangeiras, como um facto vindo a agravar ou mesmo a originar a actual crise financeira e económica mundial. No entanto, acho que esta palavra está na base do próprio sistema capitalista e a ele estará sempre associada. E a sociedade moderna, chamada muito propriamente de consumo galopante, tem vindo a agravar a sua importância social, transmitindo-a cada vez mais às novas gerações.
Hoje em dia já não é raro ver crianças gananciosas, tentando acumular bens ganhos de presente no supermercado ou na loja de esquina, exigindo dos pais compras incompatíveis com os orçamentos familiares. Fenómeno relativamente novo pela sua extensão, se já toca crianças porém, imaginemos então a devastação provocada no imaginário dos adultos.
Nas sociedades tradicionais africanas, a ganância tem sido apontada como uma das causas do recurso ao feitiço, sobretudo contra elementos da própria família, pois esse excesso de avidez pela riqueza se associa imediatamente ao sentimento negativo da inveja, por se não atingir o que se deseja e outros conseguirem. Muitos dos casos que a literatura antropológica nos apresenta como motivo para as práticas de feiticismo tem a ver com estes sentimentos de competição social provocados pela ganância, tentando o invejoso por actos sobrenaturais castigar os que têm algum sucesso económico destoando com a situação do resto da família ou da aldeia
Mantida em relativo silêncio, a ganância no entanto pauta cada vez mais as nossas vidas. Há pessoas que são tão viciadas nela como outros são na heroína ou na liamba. Quanto mais riqueza têm mais querem ter, açambarcando verdadeiros latifúndios agrários ou amamentando grupos económicos tentaculares, os chamados polvos da nossa economia. As notícias publicadas sobre o assunto pecam por defeito, mas o que vai aparecendo é suficiente para se detectarem as ramificações e associações entre os diferentes centros desses poderosos predadores que um dia saíram do nada para a fortuna, abocanhando tudo o que seja tragável, isto é, que dê lucros, de preferência imediatos. Porque a ganância torna o indivíduo sôfrego e apressado, treinado na arte de somar mentalmente com rapidez, deixando poucos traços ou pistas evidentes no terreno. Se a ganância se tornou num traço característico da humanidade, o que receio acontecer, então não há alternativa e estamos votados à catástrofe, terminando por dar cabo do planeta Terra e de toda a vida no seu interior.
A mesma propensão à acumulação meteórica de riquezas não se coaduna com medidas filantrópicas. Dir-se-á e eu concordo que, na nossa sociedade, ainda é cedo para uma filantropia consistente. A ideia de com o dinheiro ganho se reservar uma parte para melhorar o nível de vida dos outros ou para apoiar a actividade cultural ou científica da sociedade ainda tardará a se tornar numa filosofia de vida. Esperemos que seja apenas uma questão de tempo para que na nossa sociedade se instaure a cultura existente nos países anglo-saxónicos, por exemplo, onde é muito comum pessoas fazerem doações a instituições científicas, culturais ou de apoio social, não para terem os rostos em revistas cor-de-rosa mas por reconhecerem deveres em relação à sociedade que os beneficiou.
E este pensamento leva-nos a outra palavra muito pouco utilizada entre nós, mas que devia merecer uma atenção particular: a palavra ética. Suave, aparentando gentileza, plena de promessas. Infelizmente tão esquecida.
Por contraposição, esta nova palavra sugere-nos um outro lado do que descrevemos anteriormente. De facto a economia de mercado, digamos assim para evitar a carregada palavra capitalismo, cria nos seus casos extremos enormes diferenciações sociais. Um marcador que serve para comparar os países em função das diferenças entre as partes do sistema social é o chamado índice de Gini, que em Angola, segundo um estudo, atingiu em 2005 a taxa de 0,62. Este número revela uma das mais fortes diferenciações sociais do mundo. Quer dizer, os ricos são muito ricos e os pobres muitíssimo pobres. É resultado da tal ganância que leva alguns a enriquecerem a qualquer custo. Para esses, a ética é o mesmo que moldar estrelas em galáxias distantes, algo de absolutamente estranho e absurdo.
Quer dizer, precisamos de imprimir ética no mercado e nos mercadores. O estado e todas as instituições criadas para o efeito têm de se preocupar com a necessidade de os processos sociais seguirem normas, expressas por leis, de alto rigor. E que os cidadãos, quaisquer que sejam, não só cumpram as leis mas se sintam honrados por as cumprir. Isso é ética. Algumas igrejas têm tido a preocupação de transmitir certos valores, assim como outras organizações voluntárias de grande mérito, o que leva cidadãos a cumprirem as normas sociais e a fazerem outros cumprir. No entanto, não podem ser só estas instituições a ditar regras de conduta imbuídas do respeito pelo outro e da solidariedade necessária. Temos de ser todos nós.
A instituição que é chave para a socialização do indivíduo e à qual incumbe em primeiro lugar portanto a aprendizagem das normas e da ética é a família. Infelizmente, muitos se têm pronunciado pela falta de valores que as famílias transmitem aos seus membros, estando a instituição mesma de família num processo perigoso de degeneração, com as mudanças sociais bruscas introduzidas pela urbanização desregrada e a mercantilização da sociedade, pela destruição brutal dos agrupamentos e lideranças tradicionais, com a fraqueza das instituições criadas depois da independência, e com os resultados morais negativos das prolongadas guerras que o país viveu.
Tudo isso, além dos fenómenos mais modernos, como a globalização dos meios de comunicação, os novos interesses, e tecnologias em transformação permanente, faz com que as famílias se tornem débeis, e particularmente a camada dos mais velhos tenha perdido prestígio para educar os mais novos. Esta perda de estatuto social pelos mais velhos nas novas sociedades urbanas não foi compensada pela aquisição de outros valores ou pelo surgimento de instituições vigorosas. Daí se notar uma juventude um pouco perdida, vogando sem rumo pelas ruas, à espera que uma oportunidade caia do céu. Muitas vezes é a oportunidade para o crime a única coisa que surge à sua frente.
Nesse sentido, pertencemos a uma instituição que tem deveres imensos à sua frente na promoção da ética, uma nova ética. A universidade. E será esta a última palavra importante que vou esquadrinhar. Universidade, universalidade. Não me atreverei a dizer que é o último bastião da ética ou que deveria sê-lo. Felizmente restam vários bastiões. A universidade pode ser um deles, apenas. Pela sua missão de abrir horizontes ao desejo de conhecimento, muito mais até que transmitir conhecimentos, pela propalada vocação de ensinar a estudar, e de aliar essa busca do conhecimento à pesquisa científica, a universidade é um factor debater a sociedade, o tipo de sociedade que procuramos, e os meios necessários para o atingir. Num estudo sereno e profícuo. Já é altura de nós reforçarmos a ética social, primeiro com o exemplo de seriedade e profundidade que tem de vir de cima, do corpo docente e dos responsáveis.
Traumatizada por todas as vicissitudes por que passou, a sociedade olha com alguma desconfiança para as instituições e até para a nossa. Não quer dizer que seja verdade, mas é voz corrente que também na universidade se compram favores, acessos e oportunidades. É um sindroma do mal que afecta a sociedade, céptica em relação aos valores defendidos por outros, mas temos, não só de negar tais preconceitos, o que se vai fazendo no dia a dia, mas demonstrar pela prática que nem tudo está perdido, que existem baluartes onde a palavra honra é estimada, onde a honestidade é recompensada, onde o esforço abnegado tem prestígio. Todos nós, professores, nos queixamos de haver por parte dos estudantes, na sua maioria, a única ambição de obterem um título, sem a preocupação de ficarem realmente preparados para a vida activa. No entanto, se os estudantes têm tal percepção do que é a universidade e os seus mestres, cabe-nos demonstrar que os títulos que se adquirem sem esforço pouco valem e acabam por se esfarelar com um sopro de vento. Por outro lado, temos de levar ao conhecimento da sociedade os trabalhos aqui elaborados e que podem contribuir para a melhoria das condições de vida das pessoas e para o engrandecimento do país. Mas engrandecimento sem megalomania, engrandecimento com ética, respeito pela Natureza e, sobretudo, contribuindo para gerar as mesmas oportunidades para todos os cidadãos.
Se a procura de uma sociedade ideal é quimera do género humano, não faz mal ser um pouco utópico e esperar progresso quando ele é possível.
Sobretudo na ética da sociedade, com um ser humano que não queira acumular em si tudo aquilo que os outros não podem possuir, guardando um pouco daquele espírito que nos primeiros anos da independência se concretizava na busca do homem novo. Dizemos hoje que era uma utopia, assim como o socialismo que pretendíamos construir. Ao menos era uma utopia generosa, em que cada um queria ser irmão do outro e não seu adversário. Havia uma tentativa de ética e de universalismo, e havia fraternidade. Universalidade, universidade.
Palavras longas como o tempo, feitas para durar e para servirem de exemplo. Sejamos, na Universidade Agostinho Neto, esse exemplo de trabalho, abnegação e humildade.
Permitam-me em primeiro lugar agradecer a honra conferida pela Reitoria da Universidade Agostinho Neto, ao me fazer o convite para proferir esta palestra que eu gostaria bem de merecer o nome de “Oração de Sapiência”, mas temo ser demasiado modesta e ligeira para tal epígrafe.
Aproveitarei o facto de hoje a minha profissão ser unicamente a de escritor para me escudar nessa cómoda desculpa em relação a um tratamento de texto que talvez não se coadune inteiramente com a solenidade do momento. Será porventura norma nesta nossa casa que a Oração de Sapiência exija alguma reflexão teórica e respectiva linguagem sobre assuntos relevantes para uma ciência em particular. Balançando-me entre o facto de ter estudado, praticado e ensinado Sociologia, o que indicaria uma comunicação nessa área, e a minha propensão natural de ficcionista em distorcer por vezes factos escrevendo estórias, peço pois a vossa compreensão para a ligeireza e alguma falta de rigor teórico que possivelmente encontrem no meu discurso. Difícil seria acontecer o contrário e acertar imediatamente no tom mais conveniente para uma intervenção estritamente académica.
Entrando no sujeito, decidi, depois de alguma hesitação, falar sobre palavras. As palavras são afinal o instrumento por excelência do escritor, mas acabam por ser também de profissionais de outras áreas, em particular nas ciências sociais. O tema que me propus tratar, à volta das palavras, tem e não tem relação directa com as ciências sociais, sendo proveniente de observações feitas recentemente e outras intuições bem mais antigas que tenho reiteradamente repetido em público, apenas de forma diferente. Falemos pois sobre palavras.
Se me permitem um começo muito terra-a-terra, vou salientar a forma dominadora, quase tirânica, como algumas palavras se apossam rapidamente da sociabilidade, em determinado tempo e espaço. O exemplo mais claro é o da palavra engarrafamento ou trânsito caótico em Luanda, o que vem dar ao mesmo. Actualmente, surge no relacionamento entre pessoas de largo extracto social como uma continuação lógica da habitual saudação. Se perdemos trinta segundos para cumprimentar e saber da saúde do outro, gastamos seguramente mais tempo para nos queixarmos dos engarrafamentos e do trânsito caótico. Esta situação urbana passou a ser uma introdução à conversa, uma muleta para quem tem pouco a comunicar, como já foi antes o estado do tempo, com as referências sobre a chuva ou o calor.
O engarrafamento se tornou uma palavra extremamente útil no relacionamento social corrente, cumprindo o papel de gatilho da interação verbal. Tem outras conveniências. Também serve a estratégia pessoal da desculpabilização, pois a nossa proverbial falta de pontualidade encontra agora uma justificação imbatível, com provas possíveis de encontrar mesmo na imprensa internacional. É também razão apontada para cansaço persistente provocando pouca produtividade no trabalho, e mesmo desentendimentos familiares pelo afastamento material criado entre os respectivos membros. Por outro lado, se tornou ocasião privilegiada para assaltos nas ruas à vista de toda a gente e portanto para a criação da psicose da insegurança, enfim, fonte de males e perturbações psicológicas. Não nego razão a muitas destas queixas, mas a opinião pessoal do observador está fora de causa.
A palavra engarrafamento, tornada uma das mais usadas na nossa sociedade no dia a dia, explica como uma situação urbana tem reflexos sociais incontestáveis. E, se estudos fossem feitos para traduzir em kwanzas o tremendo prejuízo à economia nacional gerado pelo tempo perdido nos meios de transporte, a palavra ganharia outra dimensão à medida das nossas desgraças.
Nos dias que correm, outra palavra hiper usada é crise. Está evidentemente relacionada com a crise global financeira, originada ou apenas agravada pela especulação e apetite desenfreado de alguns magnatas do ocidente, que acabou por transbordar fronteiras e tocar toda a gente, embora alguns economistas e acríticos pensadores angolanos tenham negado a sua existência, ou mesmo a possibilidade de ela se manifestar entre nós, quando os primeiros sintomas já pairavam no horizonte e a palavra tomava incessantemente conta dos órgãos de comunicação estrangeiros. Alguns entre nós consideraram erradamente que as notícias se referiam apenas às economias mais avançadas, com forte pendor financeiro, enquanto Angola escaparia aos seus efeitos, esquecendo ou não querendo ver que se tratava de uma crise do sistema financeiro mundial e portanto afectando forçosamente todas as economias se regendo pelos princípios do capitalismo neoliberal, como é o nosso envergonhado caso, para não caracterizar o sistema económico-social que aqui se vai fazendo com um adjectivo mais contundente, mas menos digno desta venerável cerimónia.
Crise tornou-se pois a palavra das conversas, em determinado grupo social ao qual acabamos todos por pertencer, depois dos iniciais desabafos sobre o trânsito. No entanto, é palavra que merece sem dúvida maior tratamento, deixando o problema dos engarrafamentos para os políticos e técnicos que os devem resolver. Há três meses participei no Brasil num painel cujo título, curioso, era precisamente “O escritor e a crise”.
Evidentemente nenhum autor falou da crise económica e da possível acção dos escritores sobre ela, objectivo provável dos inventores do painel. Pela minha parte, limitei-me a dizer que já o título trazia equívocos, pois, por definição, um escritor é um ser em crise, pelo menos no momento de criação. A arte está indissoluvelmente ligada à procura de rupturas, inovações, correspondendo a momentos de forte tensão de grupos sociais em mudança ou à procura dela, numa palavra, crise. E depois desenvolvi a ideia já conhecida entre nós que toda a literatura angolana, desde os remotos anos do século XIX, se tem alimentado de uma sociedade em crise permanente, seja por causa da colonização e resistência a ela, seja da guerra depois da Independência, seja da situação de reestruturação social actual. E que estávamos de tal maneira habituados a crises de toda a ordem, que esta seria mais uma, apenas diferente, e não seríamos certamente chamados a resolvê-la, apenas a sofrê-la.
Acrescento que a actual crise mundial não vai obviamente encontrar solução aqui, dependentes que estamos da ordem internacional. Somos conhecidos pelo orgulho exacerbado com que nos defrontamos com o outro e a tendência a considerarmos tudo o que nos toca como sendo fundamental, único e de importância vital. Desta vez, porém, nem os mais nacionalistas ousarão colocar Angola numa das premissas essenciais de solução do problema criado pelos outros. Infelizmente para o nosso grande ego, sempre pronto a nos ver como cavaleiros andantes em busca de aventura. Devemos por isso ser humildes e prudentes ao tratar com ela, evitando gestos demasiado audaciosos que só podem neste momento ter más consequências. De qualquer maneira, mesmo se a crise não depende de nós, falamos constantemente dela e vamos usá-la como justificação para muita coisa, como se vai já adivinhando por algumas posições e intervenções públicas. Apesar de tudo de negativo que comporta, se trata de uma bela palavra, forte, rápida de pronunciar, um tiro sonoro no deserto.
Querendo, também podemos prolongar a vogal forte, criiiiise, dando um indubitável peso à nossa preocupação com o futuro. Um único aspecto quero ressaltar neste facto, é que a crise pode ser útil para o futuro. Não serei original, mais uma vez. Outros já tocaram no assunto de a situação com a qual o mundo se defronta ser capaz de estabelecer novos parâmetros para alguns apetites e exageros, obrigando a reformular o sistema capitalista vigente, pois a vertente ultraliberal está totalmente desacreditada. Talvez estes eternos optimistas tenham razão. Embora não haja de facto nada de novo, pois há mais de um século tinha sido claramente diagnosticada pelo hoje politicamente pouco correcto pensador, Karl Marx, o qual sustentava que o capitalismo vivia das crises que periodicamente criava. Assim tem sido, com maior ou menor intensidade, desde os seus primeiros escritos. No entanto, o homem é um ser de memória curta e está sempre a desaprender os ensinamentos do passado, talvez para dar mais razão de ser aos professores, os quais têm por tarefa relembrá-los.
No que nos diz respeito, pode a situação levar a repensar muita da teoria que está por baixo de numerosos actos de governantes e governados, embora normalmente essa teoria se tenha deixado de reconhecer publicamente: refiro-me à ideia, trazida dos tempos coloniais, de que Angola é um país rico.
Mesmo se a maior parte de nós não o diz claramente, por já ter vergonha de aparentar uma presunção tão combatida pela própria realidade, pensa-o nas suas conversas secretas com o travesseiro. O convencimento voltou com a euforia dos últimos anos, ao se observar um crescimento anormal do Produto Interno Bruto, apesar de alguns gritos isolados de alerta. Porém, a ideia escondida e falsa acaba sempre por contaminar o processo de traçar planos para o país.
A nossa megalomania nacional, verdadeiro traço de carácter, ou, segundo o vetusto Kardiner, um marcador da nossa personalidade de base, provém de julgarmos o país incomensuravelmente rico. Os colonizadores, nos anos sessenta e setenta do século passado, repetiram tantas vezes esta lenda, que ela passou a fazer parte do nosso código genético, por assim dizer, e agora é difícil voltar atrás e admitir o contrário, que somos de facto e por enquanto, apesar de algumas indubitáveis vitórias, um país miserável, incapaz de alimentar suficientemente os seus filhos, incapaz até agora de matar no ovo as diferentes epidemias que nos assolam, incapaz de avançar numa clara política de desenvolvimento sustentado.
Mas a crise veio para nos mostrar quanta debilidade afinal apresentamos. E ainda bem. Talvez, se nos mentalizarmos efectiva e definitivamente que país rico é aquele que pode alimentar os seus filhos e prover às suas necessidades básicas sem precisar constantemente de recorrer ao exterior, então estaremos a dar o primeiro passo para sair da situação de subdesenvolvimento em que estamos mergulhados há séculos, situação ultimamente disfarçada, mas mal, pelos arranha-céus de vidros espelhados e planos mirabolantes de viadutos esplendorosos sobre o mar. Infelizmente, essas brilhantes obras de engenharia e arquitectura ainda não saíram das cabeças e competências dos nossos profissionais, sendo sempre de inventiva estrangeira.
Além do mais, o que é triste, as grandes obras estão baseadas sobre lixo e miséria, ou
convivem paradoxalmente com eles. Por isso insisto nesta matéria de forma cansativa, somos mesmo subdesenvolvidos e dependentes. Só sairemos dessa situação de dependência quando resolvermos os nossos problemas com as nossas cabeças e quando aprendermos a olhar apenas para o espelho em busca de reconhecimento e não a procurar nas televisões ou jornais estrangeiros um magro elogio aos nossos feitos. Ao mesmo tempo que somos orgulhosos nalgumas ocasiões, diga-se de passagem por vezes com razão, também ficamos ansiosamente complexados à espera de um qualquer veredicto exterior, numa contradição patológica.
Voltando ao malabarismo com as palavras, crise é pois a que se segue a engarrafamento na frequência de uso actual, podendo vir a liderar em breve, se de facto o mundo não encontrar rápidas soluções para reformular o capitalismo, na falta de alternativa de momento, ou se nós não tivermos a capacidade de minorar os seus nefastos efeitos com os nossos próprios meios.
Mas há, por outro lado, palavras importantes e que não são suficientemente ditas. Vou pois referir-me a elas em seguida, as que deviam aparecer mais vezes nas conversas e na comunicação social mas, talvez por vergonha (ainda a vergonha!) usamos muito pouco.
A primeira é uma das mais expressivas que conheço na língua portuguesa: ganância. Sonora, vibrante e profunda, por utilizar três vezes a mesma vogal, provavelmente a mais estática das vogais, o “a”. Tem sido ultimamente utilizada nos meios internacionais, não a palavra portuguesa mas o seu correspondente em línguas estrangeiras, como um facto vindo a agravar ou mesmo a originar a actual crise financeira e económica mundial. No entanto, acho que esta palavra está na base do próprio sistema capitalista e a ele estará sempre associada. E a sociedade moderna, chamada muito propriamente de consumo galopante, tem vindo a agravar a sua importância social, transmitindo-a cada vez mais às novas gerações.
Hoje em dia já não é raro ver crianças gananciosas, tentando acumular bens ganhos de presente no supermercado ou na loja de esquina, exigindo dos pais compras incompatíveis com os orçamentos familiares. Fenómeno relativamente novo pela sua extensão, se já toca crianças porém, imaginemos então a devastação provocada no imaginário dos adultos.
Nas sociedades tradicionais africanas, a ganância tem sido apontada como uma das causas do recurso ao feitiço, sobretudo contra elementos da própria família, pois esse excesso de avidez pela riqueza se associa imediatamente ao sentimento negativo da inveja, por se não atingir o que se deseja e outros conseguirem. Muitos dos casos que a literatura antropológica nos apresenta como motivo para as práticas de feiticismo tem a ver com estes sentimentos de competição social provocados pela ganância, tentando o invejoso por actos sobrenaturais castigar os que têm algum sucesso económico destoando com a situação do resto da família ou da aldeia
Mantida em relativo silêncio, a ganância no entanto pauta cada vez mais as nossas vidas. Há pessoas que são tão viciadas nela como outros são na heroína ou na liamba. Quanto mais riqueza têm mais querem ter, açambarcando verdadeiros latifúndios agrários ou amamentando grupos económicos tentaculares, os chamados polvos da nossa economia. As notícias publicadas sobre o assunto pecam por defeito, mas o que vai aparecendo é suficiente para se detectarem as ramificações e associações entre os diferentes centros desses poderosos predadores que um dia saíram do nada para a fortuna, abocanhando tudo o que seja tragável, isto é, que dê lucros, de preferência imediatos. Porque a ganância torna o indivíduo sôfrego e apressado, treinado na arte de somar mentalmente com rapidez, deixando poucos traços ou pistas evidentes no terreno. Se a ganância se tornou num traço característico da humanidade, o que receio acontecer, então não há alternativa e estamos votados à catástrofe, terminando por dar cabo do planeta Terra e de toda a vida no seu interior.
A mesma propensão à acumulação meteórica de riquezas não se coaduna com medidas filantrópicas. Dir-se-á e eu concordo que, na nossa sociedade, ainda é cedo para uma filantropia consistente. A ideia de com o dinheiro ganho se reservar uma parte para melhorar o nível de vida dos outros ou para apoiar a actividade cultural ou científica da sociedade ainda tardará a se tornar numa filosofia de vida. Esperemos que seja apenas uma questão de tempo para que na nossa sociedade se instaure a cultura existente nos países anglo-saxónicos, por exemplo, onde é muito comum pessoas fazerem doações a instituições científicas, culturais ou de apoio social, não para terem os rostos em revistas cor-de-rosa mas por reconhecerem deveres em relação à sociedade que os beneficiou.
E este pensamento leva-nos a outra palavra muito pouco utilizada entre nós, mas que devia merecer uma atenção particular: a palavra ética. Suave, aparentando gentileza, plena de promessas. Infelizmente tão esquecida.
Por contraposição, esta nova palavra sugere-nos um outro lado do que descrevemos anteriormente. De facto a economia de mercado, digamos assim para evitar a carregada palavra capitalismo, cria nos seus casos extremos enormes diferenciações sociais. Um marcador que serve para comparar os países em função das diferenças entre as partes do sistema social é o chamado índice de Gini, que em Angola, segundo um estudo, atingiu em 2005 a taxa de 0,62. Este número revela uma das mais fortes diferenciações sociais do mundo. Quer dizer, os ricos são muito ricos e os pobres muitíssimo pobres. É resultado da tal ganância que leva alguns a enriquecerem a qualquer custo. Para esses, a ética é o mesmo que moldar estrelas em galáxias distantes, algo de absolutamente estranho e absurdo.
Quer dizer, precisamos de imprimir ética no mercado e nos mercadores. O estado e todas as instituições criadas para o efeito têm de se preocupar com a necessidade de os processos sociais seguirem normas, expressas por leis, de alto rigor. E que os cidadãos, quaisquer que sejam, não só cumpram as leis mas se sintam honrados por as cumprir. Isso é ética. Algumas igrejas têm tido a preocupação de transmitir certos valores, assim como outras organizações voluntárias de grande mérito, o que leva cidadãos a cumprirem as normas sociais e a fazerem outros cumprir. No entanto, não podem ser só estas instituições a ditar regras de conduta imbuídas do respeito pelo outro e da solidariedade necessária. Temos de ser todos nós.
A instituição que é chave para a socialização do indivíduo e à qual incumbe em primeiro lugar portanto a aprendizagem das normas e da ética é a família. Infelizmente, muitos se têm pronunciado pela falta de valores que as famílias transmitem aos seus membros, estando a instituição mesma de família num processo perigoso de degeneração, com as mudanças sociais bruscas introduzidas pela urbanização desregrada e a mercantilização da sociedade, pela destruição brutal dos agrupamentos e lideranças tradicionais, com a fraqueza das instituições criadas depois da independência, e com os resultados morais negativos das prolongadas guerras que o país viveu.
Tudo isso, além dos fenómenos mais modernos, como a globalização dos meios de comunicação, os novos interesses, e tecnologias em transformação permanente, faz com que as famílias se tornem débeis, e particularmente a camada dos mais velhos tenha perdido prestígio para educar os mais novos. Esta perda de estatuto social pelos mais velhos nas novas sociedades urbanas não foi compensada pela aquisição de outros valores ou pelo surgimento de instituições vigorosas. Daí se notar uma juventude um pouco perdida, vogando sem rumo pelas ruas, à espera que uma oportunidade caia do céu. Muitas vezes é a oportunidade para o crime a única coisa que surge à sua frente.
Nesse sentido, pertencemos a uma instituição que tem deveres imensos à sua frente na promoção da ética, uma nova ética. A universidade. E será esta a última palavra importante que vou esquadrinhar. Universidade, universalidade. Não me atreverei a dizer que é o último bastião da ética ou que deveria sê-lo. Felizmente restam vários bastiões. A universidade pode ser um deles, apenas. Pela sua missão de abrir horizontes ao desejo de conhecimento, muito mais até que transmitir conhecimentos, pela propalada vocação de ensinar a estudar, e de aliar essa busca do conhecimento à pesquisa científica, a universidade é um factor debater a sociedade, o tipo de sociedade que procuramos, e os meios necessários para o atingir. Num estudo sereno e profícuo. Já é altura de nós reforçarmos a ética social, primeiro com o exemplo de seriedade e profundidade que tem de vir de cima, do corpo docente e dos responsáveis.
Traumatizada por todas as vicissitudes por que passou, a sociedade olha com alguma desconfiança para as instituições e até para a nossa. Não quer dizer que seja verdade, mas é voz corrente que também na universidade se compram favores, acessos e oportunidades. É um sindroma do mal que afecta a sociedade, céptica em relação aos valores defendidos por outros, mas temos, não só de negar tais preconceitos, o que se vai fazendo no dia a dia, mas demonstrar pela prática que nem tudo está perdido, que existem baluartes onde a palavra honra é estimada, onde a honestidade é recompensada, onde o esforço abnegado tem prestígio. Todos nós, professores, nos queixamos de haver por parte dos estudantes, na sua maioria, a única ambição de obterem um título, sem a preocupação de ficarem realmente preparados para a vida activa. No entanto, se os estudantes têm tal percepção do que é a universidade e os seus mestres, cabe-nos demonstrar que os títulos que se adquirem sem esforço pouco valem e acabam por se esfarelar com um sopro de vento. Por outro lado, temos de levar ao conhecimento da sociedade os trabalhos aqui elaborados e que podem contribuir para a melhoria das condições de vida das pessoas e para o engrandecimento do país. Mas engrandecimento sem megalomania, engrandecimento com ética, respeito pela Natureza e, sobretudo, contribuindo para gerar as mesmas oportunidades para todos os cidadãos.
Se a procura de uma sociedade ideal é quimera do género humano, não faz mal ser um pouco utópico e esperar progresso quando ele é possível.
Sobretudo na ética da sociedade, com um ser humano que não queira acumular em si tudo aquilo que os outros não podem possuir, guardando um pouco daquele espírito que nos primeiros anos da independência se concretizava na busca do homem novo. Dizemos hoje que era uma utopia, assim como o socialismo que pretendíamos construir. Ao menos era uma utopia generosa, em que cada um queria ser irmão do outro e não seu adversário. Havia uma tentativa de ética e de universalismo, e havia fraternidade. Universalidade, universidade.
Palavras longas como o tempo, feitas para durar e para servirem de exemplo. Sejamos, na Universidade Agostinho Neto, esse exemplo de trabalho, abnegação e humildade.
terça-feira, 17 de março de 2009
I am green
Sou verde, sou plantas, pureza
A natureza, que beleza...
Sou green
como verde, como orgânico, macrobiótico
o que eu escolher!
Visto orgânico, não sintético
E protejo a terra-mãe
Eu honro Gaia
I’m green, I’m clean!
Sou verde, e porque exijo da tecnologia
eu digijo carro green
uso sabonete clean
orgânico green
Quando vou às compras
levo meu cesto de palha
e assim evito usar saco plástico,
tóxico. Sintético!
E se ao shopping for
Sei que serei bem servida
com sacos de papel reciclado
de lojas de produtos green
Produzo orgânico
Não poluo o ambiente
Vou transformando os recursos
Em seu meio ambiente
Eu sou green!
Clean!
A natureza, que beleza...
Sou green
como verde, como orgânico, macrobiótico
o que eu escolher!
Visto orgânico, não sintético
E protejo a terra-mãe
Eu honro Gaia
I’m green, I’m clean!
Sou verde, e porque exijo da tecnologia
eu digijo carro green
uso sabonete clean
orgânico green
Quando vou às compras
levo meu cesto de palha
e assim evito usar saco plástico,
tóxico. Sintético!
E se ao shopping for
Sei que serei bem servida
com sacos de papel reciclado
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Produzo orgânico
Não poluo o ambiente
Vou transformando os recursos
Em seu meio ambiente
Eu sou green!
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domingo, 8 de março de 2009
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